quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

uma passagem do Ano especial

Nem todas as manifestações no dia 31 de Dezembro são parecidas: na Escócia é o dia do Hogmanay.

Entre as várias actividades, a principal é, mal soa a meia-noite, ser o primeiro a entrar em cada dos amigos ou vizinhos, oferecendo sal, carvão, bolachas, whisky e um bolo de frutas, estilo "bolo-inglês" (neste caso, escocês).

Os donos da casa têm, também, comida e bebidas para os que eventualmente os visitem, e este deambular dura até de madrugada. São especialmente bem-vindos os homens de cabelo escuro, e menos "bem-olhados" os louros ou ruivos.

Sempre é mais engraçado do que andar de língua da sogra e chapeuzinho triangular, a fazer chinfrim numa discoteca ao som de batucadas brasileiras...

Vem aí o Ano Novo


Vamos cantar as janeiras
Vamos cantar as janeiras
Por esses quintais adentro vamos
As raparigas solteiras
Vamos cantar orvalhadas
Vamos cantar orvalhadas
Por esses quintais adentro vamos
As raparigas casadas
Vira o vento e muda a sorte
Vira o vento e muda a sorte
Por aqueles olivais perdidos
Foi-se embora o vento norte
Muita neve cai na serra
Muita neve cai na serra

Só se lembra dos caminhos velhos
Quem tem saudades da terra
Quem tem a candeia acesa
Quem tem a candeia acesa
Rabanadas pao e vinho novo
Matava a fome à pobreza
Já nos cansa esta lonjura
Já nos cansa esta lonjura
Só se lembra dos caminhos velhos
Quem anda à noite à ventura


José Afonso

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

a verdade escondida nos pormenores

Este é daqueles que escoa a angústia dos dias e retem tudo o resto que vale a pena ser retido...


É esta a divisa do Blogue "Algeroz", à qual deveríamos dar a devida atenção - à divisa e ao Blogue.

Um copo meio cheio ou um copo meio vazio? Nunca o teremos totalmente num sentido ou no outro. A nós compete-nos decidir. E reter o que vale a pena ser retido, ou deixar que nos invada e envolva aquilo que é secundário, acessório e supérfluo.

Obrigado, Miguel, por mais este ensinamento!

o meu primeiro poema


Neste final de ano, não resisto a colocar aqui o primeiro poema que escrevi, em 1968 - faz agora 40 anos -, para um trabalho de casa (redacção) de português sobre o tema "Inverno". O quadro que escolhi é de Fernando Pe, e intitula-se "Miséria". Permito-me discordar do pintor, porque o olhar digno da criança afasta o título de miséria - quanto muito indigência, pobreza, iniquidade.


Inverno da longa espera
pela Primavera

da chuva constante
dos céus prateados
do vento ululante
dos corpos gelados

Inverno da terra
da criança e da morte
do caos e da guerra
dos homens sem sorte

Inverno

Inverno que sempre insiste
Inverno dos longos dias
E do fogo que não existe
nas nossas lareiras vazias

Pobre criança triste
A infância não a teve
e só o boneco de neve
lhe sorri com olhar terno

Inverno
Inferno

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Boxing Day



Hoje é dia de descansar, arrumar, ver e admirar o que nos deram, pensar naqueles que nos querem bem, fazer o balanço daqueles que não nos querem assim tanto (coitados, têm sempre uma desculpa... nós é que não...), e curtir o dia.

Bom "Boxing day". Dia em que os anfitriões preparam os pequenos almoços e os levam à cama das visitas.

E assim corre a vida - por mim, foi um dos melhores Natais. Simples, quente, carinhoso, familiar. A Família (não necessariamente a colateral biológica - mas sobretudo a dos amigos, filhos e netos) é a coisa mais importante do mundo!

Espera-me jardinagem, pintura, poesia, lareira e amor daqueles que mais amamos. Que mais se pode querer?

Portugal real


De volta à realidade. Anúncio colocado num dos talhos da Lourinhã.

Afinal, ainda há senhoras honestas (apesar de apenas em dias úteis, e da parte da tarde...).

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

FELIZ NATAL

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

"mas as crianças, Senhor..."

Ah! vous dirai-je, Maman,
Ce qui cause mon tourment.

Papa veut que je raisonne,
Comme une grande personne.

Moi, je dis que les bonbons
Valent mieux que la raison.


terça-feira, 23 de dezembro de 2008

mais um que sofre de desenteria verbal

O Papa condenou a homossexualidade e a transexualidade - comparando-as à destruição das florestas troipicais (?!) - porque não ter filhos põe em causa a sobrevivência da Humanidade.


E eu a pensar que, por estes dias, estaria ele ocupado em embrulhar presentes para todos os seus descendentes directos... ele e todos os cardeais, bispos, padres e afins...

Afinal, o Papa compara-se a si próprio à destruição da floresta amazónica porque, convenhamos, quem é ele mais do que os outros para os condenar por não terem filhos? (além de que a orientação sexual não se escolhe, e o celibato sim!).

Seria caso para dizer "Perdoai-lhe Senhor, porque não sabe o que diz!". Mas o pior é que sabe...

Ao menos, aquele padre de Fronteira, no Alentejo, que tinha o cognome de "Fazia-os e baptizava-os" era bastante mais merecedor do Reino dos Céus!

Poemas de Natal 14 - Fernando Pessoa (outra vez)

Chove. É dia de Natal - Fernando Pessoa



Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal,
E o frio que ainda é pior.

E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.

Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho o frio e Natal não.

Deixo sentir a quem quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés.


PIntura: Caillebotte - Paris, la pluie

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

22 de dezembro - tanta coisa...

Há 150 anos nascia Puccini. O que seria de nós sem ele, sem o seu lirismo e as suas óperas? Não me atrevo a arriscar...


Há 40 anos, Caetano Veloso e Gilberto Gil eram presos por "actividades subversivas" - apenas cantavam a Liberdade. É bom que nos recordemos, porque muitos de nós somos "desse tempo".

Há vinte anos era assassinado Chico Mendes, activista da Amazónia a favos dos Sem-Terra e contra a destruição do "pulmão do mundo" pelos madeireiros. Também é bom recordá-lo.

Lula da Silva é o Presidente (re)eleito do Brasil - a Liberdade e a Democracia conquistam-se e mantêm-se, mesmo com as suas dificuldades e fragilidades, mas com a beleza e o sentimento das Óperas de Puccini.

Poemas de Natal 13 - Vitorino Nemésio

Natal chique - Vitorino Nemésio



Percorro o dia, que esmorece
Nas ruas cheias de rumor;
Minha alma vã desaparece
Na muita pressa e pouco amor.

Hoje é Natal. Comprei um anjo,
Dos que anunciam no jornal;
Mas houve um etéreo desarranjo
E o efeito em casa saiu mal.

Valeu-me um príncipe esfarrapado
A quem dão coroas no meio disto,
Um moço doente, desanimado…
Só esse pobre me pareceu Cristo.

domingo, 21 de dezembro de 2008

começou o Inverno

Hoje começou o Inverno - mas, para contrariar o "desagradável" da Estação (eu pessoalmente não desgosto de certos tempos invernosos), há a consolação de os dias aumentarem um minuto de manhã e um minuto à tarde, até vencerem a noite a 21 de Março.

Poemas de Natal 12 - Camilo Pessanha

Rosas de Inverno - Camilo Pessanha



Corolas, que floristes
Ao sol do inverno, avaro,
Tão glácido e tão claro
Por estas manhãs tristes.
Gloriosa floração,
Surdida, por engano,
No agonizar do ano,
Tão fora da estação!
Sorrindo-vos amigas,
Nos ásperos caminhos,
Aos olhos dos velhinhos,
Às almas das mendigas!
Desse Natal de inválidos
Transmito-vos a bênção,
Com que vos recompensam
Os seus sorrisos pálidos.

sábado, 20 de dezembro de 2008

Eanito, já saíste de lá há vinte e dois anitos. Felizmente!

Eanes admite dissolução do Parlamento
Ramalho Eanes provocou um terramoto político ao admitir que existem condições políticas para o presidente da Repúblicar proceder à dissolução da Assembleia da República e convocar eleições legislativas antecipadas.

JN on-line


Mas esta gente está doida? Não foi este Parlamento que aprovou, por UNANIMIDADE, o Estatuto dos Açores? Não foi este Parlamento que voltou a votar, por maioria qualificada, esse Estatuto? Não é normal (e muito saudável!) que os órgãos de soberania tenham, de quando em quando, diferenças de opinião? Para que serve o regime semi-presidencialista? Para que servem a Constituição e os processos constitucionais?

Pessoalmente, continuo a achar que Cavaco tem razão, mas a democracia é assim. O senhor General ainda está no tempo do Conselho da Revolução e do PRD. A Madre de Deus que o guarde!

Quanto ao PSD e ao discurso de Paulo Rangel, só algumas palavras simples: cobardia, cinismo, vergonha. Para serem coerentes votassem contra.

Quanto ao terramoto político não dei por nada: o dia está primaveril, a luz maravilhosa, e as pessoas borrifando-se cada vez mais para os partidos.

Poemas de Natal 11 - António Feijó

Noite de Natal - António Feijó



A um pequenito, vendedor de jornais

Bairro elegante, – e que miséria!
Roto e faminto, à luz sidéria,
O pequenito adormeceu…
Morto de frio e de cansaço,
As mãos no seio, erguido o braço
Sobre os jornais, que não vendeu.
A noite é fria; a geada cresta;
Em cada lar, sinais de festa!
E o pobrezinho não tem lar…
Todas as portas já cerradas!
Ó almas puras, bem formadas,
Vede as estrelas a chorar!
Morto de frio e de cansaço,
As mãos no seio, erguido o braço
Sobre os jornais, que não vendeu,
Em plena rua, que miséria!
Roto e faminto, à luz sidéria,
O pequenito adormeceu…
Em torno dele – ó dor sagrada!
Ao ver um círculo sem geada
Na sua morna exalação,
Pensei se o frio descaroável
Do pequenino miserável
Teria mágoa e compaixão…
Sonha talvez, pobre inocente!
Ao frio, à neve, ao luar mordente,
Com o presépio de Belém…
Do céu azul, às horas mortas,
Nossa Senhora abriu-lhe as portas
E aos orfãozinhos sem ninguém…
E todo o céu se lhe apresenta
Numa grande Árvore que ostenta
Coisas dum vívido esplendor,
Onde Jesus, o Deus Menino,
Ao som dum cântico divino,
Colhe as estrelas do Senhor…
E o pequenito extasiado,
Naquele sonho iluminado
De tantas coisas imortais,
– No céu azul, pobre criança!
Pensa talvez, cheio de esp’rança,
Vender melhor os seus jornais…

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

pessoa

Já que falamos de Pessoa e, nos comentários à Entrada anterior, de non-sense, vale a pena recordar um poema seu, praticamente desconhecido... et pour cause:

António de Oliveira Salazar
Três nomes em sequência regular.
António é António
Oliveira é uma árvore
Salazar é só um apelido
Até aí está tudo bem.
O que não faz sentido
É o sentido que isso tudo tem.

Poemas de Natal 10 - Fernando Pessoa

Natal - Fernando Pessoa




Natal... Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.
Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
Estou só e sonho saudade.

E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Poemas de Natal 9 - Mário de Sá-Carneiro

A noite de Natal - Mário de Sá-Carneiro



Em a noite de Natal
Alegram-se os pequenitos;
Pois sabem que o bom Jesus
Costuma dar-lhes bonitos.
Vão se deitar os lindinhos
Mas nem dormem de contentes
E somente às dez horas
Adormecem inocentes.
Perguntam logo à criada
Quando acorde de manhã
Se Jesus lhes não deu nada.
– Deu-lhes sim, muitos bonitos.
– Queremo-nos já levantar
Respondem os pequenitos.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

ai Obama...

Obama nomeia Ken Salazar como secretario do Interior


Yes, we Ken? desde que não seja, yes, we Salazar...

Poemas de Natal 8 - Maria do Rosário Pedreira

Natal (à avó) - Maria do Rosário Pedreira



ficou vazio o teu lugar à mesa. Alguém veio dizer-nos
que não regressarias, que ninguém regressa de tão longe.
E, desde então, as nossas feridas tem a espessura
do teu silêncio, as visitas são desejadas apenas
a outras mesas. Sob a tua cadeira, o tapete
continha engelhado, com a tua ida.
provavelmente ficará assim para sempre.
no outro Natal, quando a casa se encheu por causa
das crianças e um dos nós ocupou a cabeceira,
não cheguei a saber
se era para tornar a festa menos dolorosa,
se era para voltar a sentir o quente do teu colo.

Poemas de Natal 7 - Pedro Tamen

Natal - Pedro Tamen



Não digo do Natal – digo da nata
do tempo que se coalha com o frio
e nos fica branquíssima e exacta
nas mãos que não sabem de que cio
nasceu esta semente; mas que invade
esses tempos relíquidos e pardos
e faz assim que o coração se agrade
de terrenos de pedras e de cardos
por dezembros cobertos. Só então
é que descobre dias de brancura
esta nova pupila, outra visão,
e as cores da terra são feroz loucura
moídas numa só, e feitas pão
com que a vida resiste, e anda, e dura.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

terrorismo - a força é a fraqueza

Mais uma vez os terroristas atacam, desta vez no Printemps, em Paris.

A sua força é a imprevisibilidade, e o facto de poder acontecer em qualquer lado. Mas essa é também a sua maior fraqueza, porque sendo alvos tão aleatórios leva a que as pessoas continuem a fazer a sua vida normal.

Se atacassem só as redes de metro, possivelmente muita gente deixaria de andar de metro. Ao quererem ser "tudo" acabam por não ser "nada".

Vida normal = melhor combate ao terrorismo.

Poemas de Natal 6 - Bocage

Natal - Bocage



Se considero o triste abatimento
Em que me faz jazer minha desgraça,
A desesperação me despedaça,
No mesmo instante, o frágil sofrimento.
Mas súbito me diz o pensamento,
Para aplacar-me a dor que me traspassa,
Que Este que trouxe ao mundo a Lei da Graça,
Teve num vil presepe o nascimento.
Vejo na palha o Redentor chorando,
Ao lado a Mãe, prostrados os pastores,
A milagrosa estrela os reis guiando.
Vejo-O morrer depois, ó pecadores,
Por nós, e fecho os olhos, adorando
Os castigos do Céu como favores.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Poemas de Natal 5 - Miguel Torga

Natal - Miguel Torga



Natal divino ao rés-do-chão humano,
Sem um anjo a cantar a cada ouvido.
Encolhido
À lareira,
Ao que pergunto
Respondo
Com as achas que vou pondo
Na fogueira.
O mito apenas velado
Como um cadáver
Familiar…
E neve, neve, a caiar
De triste melancolia
Os caminhos onde um dia
Vi os Magos galopar…

domingo, 14 de dezembro de 2008

Poemas de Natal 4 - Manuel Alegre

Natal - Manuel Alegre



Acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.
Era gente a correr pela música acima.
Uma onda uma festa. Palavras a saltar.

Eram carpas ou mãos. Um soluço uma rima.
Guitarras guitarras. Ou talvez mar.
E acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.

Na tua boca. No teu rosto. No teu corpo acontecia.
No teu ritmo nos teus ritos.
No teu sono nos teus gestos. (Liturgia liturgia).
Nos teus gritos. Nos teus olhos quase aflitos.
E nos silêncios infinitos. Na tua noite e no teu dia.
No teu sol acontecia.

Era um sopro. Era um salmo. (Nostalgia nostalgia).
Todo o tempo num só tempo: andamento
de poesia. Era um susto. Ou sobressalto. E acontecia.
Na cidade lavada pela chuva. Em cada curva
acontecia. E em cada acaso. Como um pouco de água turva
na cidade agitada pelo vento.

Natal Natal (diziam). E acontecia.
Como se fosse na palavra a rosa brava
acontecia. E era Dezembro que floria.
Era um vulcão. E no teu corpo a flor e a lava.
E era na lava a rosa e a palavra.
Todo o tempo num só tempo: nascimento de poesia.

sábado, 13 de dezembro de 2008

Poemas de Natal 3 - David Mourão Ferreira

Litania para a noite de Natal - David Mourão-Ferreira



Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
num sótão num porão numa cave inundada
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
dentro de um foguetão reduzido a sucata
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
numa casa de Hanói ontem bombardeada

Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
num presépio de lama e de sangue e de cisco
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
para ter amanhã a suspeita que existe
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
tem no ano dois mil a idade de Cristo

Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
vê-lo-emos depois de chicote no templo
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
e anda já um terror no látego do vento
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
para nos pedir contas do nosso tempo

Recado do mano mais velho

Eduardo
Como vês, é possível dar banho, não só a um mas a muitos bois - é preciso é vontade, sabedoria, e trabalho de equipa.
Beijinhos
Pedro





neste Natal...



ofereça LIVROS!

(fotografia: blogue da Escola EB Padre Alberto Neto)

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

um pensamento aos seis anos...


Desculpem a babadice de Pai!