sábado, 31 de maio de 2008

A praia que irradia a luz


Em tempos um pescador encontrou um tesouro nas redes do seu bote. Mas como a inveja grassava e a desconfiança era sentimento comum, escondeu o cofre num buraco da rocha e confiou a sua guarda a um dragão. Quem se aproximasse, cedo se arrependia, porque o monstro, fiel ao dono e cumpridor da promessa, logo o fulminava com o fogo do seu bafo.

Os tempos passaram e esta história nunca existiu. Provavelmente. Mas ficou a cova onde o dragão se acoitaria, na pequena baía formada pela Rocha Negra.

A Praia da Luz justifica o nome. Praia. Luz. Já lá vão os tempos em que a aldeia não era mais do que uma rua “direita” de casas de pescadores, meia dúzia de casas de férias de famílias da capital, e um bairro residencial habitado por ingleses que um dia, nos anos sessenta, hastearam a bandeira de Sua Majestade e declararam a adesão à Coroa Britânica, revolta efémera, diga-se de passagem, que terminou com a intervenção esperada, inevitável e eficaz das autoridades portuguesas.

Os tempos mudaram e a Praia da Luz cresceu. Modernizou-se. Urbanizou-se, com períodos negros de construção desenfreada. Pariu verdadeiras aberrações arquitectónicas. Mas o que é belo está acima da ganância e da pequenez humana, e a Praia, com a ajuda inteligente de alguns autarcas mais recentes, soube preservar os seus espaços mais significativos e importantes – o areal, as rochas, as enseadas... e o mar. Sempre o mar. Azul.

A Igreja é o centro de referência de quem vive e de quem chega. “Viras à esquerda na Igreja”. “Vai até á Igreja e pergunta”. Aí repousa a imagem da Senhora da Luz, que um dia, há mais de um século, um outro pescador recolheu das profundezas do mar, provavelmente das mãos do próprio Neptuno. Há cada vez menos barcos de pescadores na praia, e também não existe nenhum dragão no lugar de culto. Apenas paredes caiadas, uma pia baptismal de pedra clara, os tectos de madeira escura com travejamento singelo, e ao fundo, passado o arco rebaixado, o altar, com a sua magnífica talha doirada.

Da Igreja descemos a rua que conduz à praia, recentemente beneficiada por uma interdição ao trânsito automóvel, pavimentada com calçada portuguesa e embelezada por uma fila de palmeiras que emolduram o mar, a Rocha Negra, que se destaca, escura, sobre os tons amarelos e ocres das Ferrarias, e ao fundo a Ponta da Piedade, com as suas grutas de águas e paredes multicolores. Para trás ficou a Fortaleza, antigo fortim do século XVII, hoje convertida em restaurante, frequentado por estrangeiros. Virado para o Atlântico. O Atlântico. Azul. Ao Sul.


Deambulo pela vila – o conceito de aldeia ficou para trás, no tempo, engolido pela vertigem da construção e do poder de compra, e pela passagem dos anos -, e os meus olhos deixam-se gravar pelas buganvílias e hibiscos coloridos e florescentes. Chilreiam os pássaros e ouvem-se as crianças. Brincam na praia, aproveitando o tempo que lhes resta. A areia convida e o mar também.

Assento praça numa esplanada e bebo um gin, vagarosamente, alternando cada gole com um gole no oceano. As cores do fim de tarde começam a desenhar uma aguarela. A realidade torna-se onírica. Antes que anoiteça, o Sr. João já recolheu os toldos, e só restam as estacas brancas, qual exército plantado na areia, esperando estoicamente pelas manobras bélicas do resto do Verão.


Que fica da vida, se não os momentos bons, partilhados e vividos? Enquanto saboreio o gin, o dia escoa-se entre os dedos do tempo. E entre os meus dedos e o meu tempo, ficará a réstia do entardecer nos repositórios da memória. E o mar, sempre azul. Sempre azul. Ao sul.

3 comentários:

JB disse...

Acabei de construir um filme com fotos da nossa Luz e mais algumas das praias e falésias da zona. Amanhã mando-te o link que podes pôr aqui para alguém que queira ver ainda melhor esta maravilhosa estância de férias e para nós de recordações inesquecíveis.

Virgínia

Milene disse...

Estas imagens são a antecipação de mais um Verão e o convite às férias que se aproximam, na Praia da Luz, é claro.

Anónimo disse...

Continuo a amar a praia da Luz, agora mais deserta (desde a euforia do ano passado com o desaparecimento da pequena Madeleine).
Que lhe aconteceria realmente?
Que por ali existem "olheiros", realmente existem!!