sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

a carne vale


Não gosto do Carnaval, aliás, detesto o Carnaval.
Entendo que foi uma maneira de mostrar que "a carne valia", antes da imposição das regras quaresmais, do jejum e da abstinência.

E entendo que, sob disfarce, tudo é permitido, porque o anonimato retira a culpa, tão querida da moral judaico-cristã. É esse o meu medo, o meu horror, o receio das massas ululantes e anónimas.

Exactamente por isto, não gosto. Não gosto de me mascarar - assim como não gosto de palhaços -, e a obrigação de "ter de me divertir" por obrigação faz-me pele de galinha.

Assim, para lá dos disfarces dos miúdos - que não têm, felizmente, estas angústias existenciais -, o fim de semana prolongado vai ser de sol, descanso, música e poesia.

Pensar que o governo de Cavaco Silva sofreu o golpe de misericórdia por causa do Carnaval... o povo gosta, pois então dai-lo ao povo. Por mim, "out of Africa".

12 comentários:

joaopedrosantos disse...

Já somos 2. Também nunca gostei de Carnaval. Talvez seja trauma de infância porque o Carnaval do Brasil me metia muito medo.
Pregar partidas e assustar os outros, sem medir a consequência e todos os outros serem obrigados a "alinhar" e a não levar a mal sempre me causou incómodo.

Elisete disse...

Já somos 3. Nunca gostei do Carnaval e não tenho a mínima paciência para aturar as correspondentes "brincadeiras". Mas agora há uma criaturinha que se quer mascarar (este ano de Transformer) e tenho que me esforçar.

Anónimo disse...

Desta vez não resisto a deixar o meu comentário... Talvez porque o Carnaval ( o Carnaval como eu o entendo...) seja época de deixar levar mais além a nossa criatividade e o nosso lado mais espontâneo. Deixe-me desafiá-lo, Dr Mário (agora que aproveita aos fins de semana os ares do Oeste)a passar pelas ruas de T. Vedras uma noite destas de Carnaval e apreciar a criatividade dos grupos que vão circulando pela cidade. A boa disposição e as ideias de algumas indumentárias, são simplesmente fantásticas. Acho que vale a pena ver...

Isália

P.S. - Os Super Heróis que deixou no Colégio estavam simplesmente fantásticos!

Catarina L. disse...

... e pegando no comentário da Isália, para além de Torres Vedras, passe igualmente por Alcobaça e delicie-se com a criatividade e humor daquelas gentes.
Concordo claramente com a frase: " e a obrigação de ter de me divertir por obrigação faz-me pele de galinha", e sinto isso mesmo na passagem de ano, e por vezes até no Natal...

O carnaval pode ser catartico. ;) Retire-lhe o anonimato e aprecie as pessoas que conseguem libertar-se através dessas mesmas emoções com muito bom humor.

Ainda assim: votos de um óptimo "Out of Africa"!

Anónimo disse...

Eu sinceramente do Carnaval em si não gosto mas só de pensar no Carnaval do Brazil, do calor, da praia, do Carnaval do Rio (que um dia irei passar) do sambódromo (em que um dia desfilarei), fico logo a gostar mais do Carnaval. E só de pensar que vou ter uns dias de descanso com sol em Castelo de Bode com a tranquilidade e paz (própria de um Carnaval com familia em que existem imensas crianças) fico a adorar o Carnaval.

Já agora, a Carminho foi mascarada de sevilhana e a Caetana também, já tinha a máscara anterior da irmã que "por acaso" era de sevilhana (a mãe tem uma capacidade inventiva enorme).
Joana

zé disse...

Para quem detesta o Carnaval, é totalmente desaconselhável assistir ao canal A.R. tv.
Abraços!

Francisca Prieto disse...

Pai Mário,

Tambám não gosto do carnaval, sobretudo ultimamente porque sou obrigada a puxar pela imaginação para mascarar 4 crianças a custo 0 (que a vida está cara!).

Mas devo confessar que este carnaval teve um sabor especial.

Hoje levei para a escola a minha valente Xiquinha mascarada de Moçambicana com uma grande cabeleira encaracolada, várias capolanas e uma filha às costa.

Achei que ia fantástica, tirei várias fotografias antes de sair de casa, mas achei que era coisa de mãe (porque afinal achamos sempre que os nossos filhos são lindos).
Quando entrou na escola ouviram-se de imediato gargalhadas sonoras e as educadoras a chamarem-se umas às outras para virem ver o fenómeno. No meio das diversas fadas e homens aranhas a Xiquinha destacava-se, como sempre, pela diferença.
Nunca ninguém tinha visto uma Moçambicana com Trissomia 21.

Saí de lá com o coração quente e, mais uma vez com a palavra VITÓRIA a inundar-me a alma.

Percebo que não se perceba, mas às vezes sentimos lá no fundo que é mesmo bom ter um filho especial.

Anónimo disse...

Seremos muitos a nãosuportar a imposição da folia. Respeito a máscara para a gastar em cetim barato dos chineses. Mas com filhos há sempre histórias ...
Aos 4 anos o meu filho mais velho quis mascarar-se de Maestro, argumentámos que ninguém o iria reconhecer... Mas lá foi de batuta, estante e pautas...
A minha filha recém chegada à província quis ser a princesa Leia (Star Wars), o Pai fez o fato e a Avó o cabelo, estava feliz mas só foi reconhecida por 1 amigo...
Este ano e porque o tal custo 0 tem muita força, e havia 2 pequenos para vestir, tivémos um Mestre D'Avis e um D. Nuno Álvares Pereira, (fronhas, impressão caseira, botas de montar com15 anos, espadas e aaté bassinetes!!!) chegram à escola e no meio de 10 tartarugas ninja e destacavam-se, como eram 2 faziam ainda mais impacto e aproveitei para falar aos amigos ( entre os 2 e os 6 anos) sobre Aljubarrota.
A carne vale para quem tiver dentes!!!

Mário disse...

"Olá a todos", como diria o Noddy.
Vejo que este tema suscitou debate, o que é sempre bom para quem escreve.
Já fui ao Carnaval de Torres, há vinte e tal anos, mas depois abrasileirou-se e optou pelo caminho mais fácil: mostrar bundas e pouco mais.
Este ano, não sei como será, mas já vi que provocou uma polémica ridícula por causa de um desenho num computador Magalhães - isso, para mim, é grave e mostra que, debaixo do Carnaval, vivemos tempos um bocado "coisos" em termos de liberdade de expressão. São demasiados, embora pontuais, mas significativos, como o professor do norte, o médico que afixou uma frase do ex-ministro e outras coisas assim.

Estou de acordo que, para os miúdos, é engraçado e eles divertem-se. Os meus adoraram, e o Eduardo, na EB14, desfilou com todos os meninos pelas ruas da freguesia. Os gémeos também gostaram muito do Carnaval na Escola.
Eu, em pequeno, detestava máscaras, mas adorava atirar serpentinas da varanda para o jardim, prendias-as com pedras, e ficava a casa toda com aquela cortina colorida. O pior era a chuva ou o vento.

Francisca: todas as crianças (=pessoas) são especiais, únicas e insubstituíveis. Creio, aliás, que se dão demasiados "bitaites" e se fazem demasiados juízos de valor sobre as decisões íntimas, como a de ter filhos, quando e como. Há sempre comentários: "tão cedo? já? tão tarde? mas não tens já dois? com essa idade? olha que...? mas vais mesmo levar isso avante?".

A intimidade não se partilha, ou deixa de ser intimidade. É por isso que os filhos são para nós, pessoas únicas, e não há ninguém, mesmo com proles enormes, que consiga entender toda a dimensão de uma relação entre pais e filhos. Porque todas são diferentes, especiais e íntimas. Para lá da compreensão (e dos olhares e críticas) dos outros.
(mas gostava de ter visto essa afro-lusitana).

Virginia disse...

O Caranaval para mim tb era um suplício enquanto jovem - apesar de termos férias e festas, q.b. e depois como Mãe , a ter de vestir a preceito tr~es filhos . Nunca me esquecerei do João que com 9 anos se vestiu de sotaina, chapéu e óculod de capelão e estava de morrer a rir assim como do Zé com longa cabeleira loira comprada no Bazar de Paris, disfarçado de Mozart com um casaco que pertencia ao teatro do Liceu. Ainda tenho essas fotografias maravilhosas... agora são os netos que quiseram ir os dois de Zorro e que fizeram um duelo com espadas de cartão , acabando com elas de vez.
Fuyi uma vez a Veneza na 2ª e 3ª de Carnaval. Ali é magia. O meu filho João, a quem tinha ido visitar a Munique, pôs-me lá e foi a maior surpresa da minha vida. Fantástico.

Bom descanso para todos.

Mário disse...

"O povo toma pileques de ilusão com futebol e carnaval. São estas as suas duas fontes de sonho".

Carlos Drummond de Andrade

Francisca Prieto disse...

Vá, mande-me o seu e.mail que eu retribuo com a foto da Moçambicana.

Um abraço
Francisca