quarta-feira, 27 de agosto de 2008

sebastião dá porrada na mulher...

"Violência doméstica dá direito a ordenado mínimo" - diz o DN, em "gordas".

Na página 3, surge uma fotografia em que se vê um homem e uma mulher a lutar, tendo em primeiro plano duas crianças, e num plano intermédio uma garrafa de vinho com um copo meio-cheio.
A legenda desta fotografia é: "Mulheres que sejam maltratadas recebem adiantamento do Governo". E o texto reza: "As mulheres vítimas de maus tratos podem receber do Estado..."

Mulheres. Apenas mulheres. Mais uma vez, no espírito machista vigente (que curiosamente não vejo nenhuma feminista criticar ou sequer referir...) e quase glosando as palavras do Presidente sobre a lei do divórcio, os homens vítimas de maus tratos (porque também os há, e bastante mais do que se julga) ficam de fora da notícia.

"Homem é a besta que bate. Mulher o ser frágil que apanha.". Em que Escola de Comunicação Social andaram estes jornalistas?

Aqui fica um cartaz britânico, para vermos como somos atrasados (mentais).

6 comentários:

Anónimo disse...

Não sei, Mário, se a percentagem é visível. Mas vejo que os homens alcoólicos são muitissimos e que beber não é comparável em gravidade , segundo as convenções sociais, ao fumar, ao drogar-se ou ao ser infiel. Beber em Portugal é viril, é de homem, é mesmo bué.
A percentagem de homens que chegam aos 40 anos e se tornam alcoólicos - sobretudo depois das 6 horas deve ser enorme, porque mesmo os mais virtuosos o consideram justo. Daí a viol~encia, que pode ser física, mas 90% dos casos é verbal e terrível no desabar das relações conjugais. Um homem que perde a noção de si próprio da sua dignidade, que enxovalha a mulher e os filhos, que manda bocas foleiras, que bebe pela noite fora é um nódoa na família e ninguém diz nada.
O mesmo pode acontecer com a mulher, mas não me parece que as portuguesas sejam muito dadas a beber assim desalmadamente, até porque têm filhos para cuidar ( ainda são elas que cuidam deles) ou pais idosos ou um emprego para manter e uma noção de responsabilidade mais apurada.
Lamento contrariar-te, mas não me parece justo esse reparo quanto aos benefícios do estado para mulheres maltratadas. Algumas deveriam receber indemnizações vitalícias. è muito o que se sofre neste país por falta de dinheiro, por dependência psicológica, por amor ou seja lá pelo que for.

Virgínia

Mário disse...

Virginia
Eu concordo totalmente com o apoio estatal às vítimas de violência - doméstica ou outra - e também que o problema do alcoolismo tem sido menosprezado em Portugal, comparativamente com outras drogas.
O que me chocou foi a colagem da "vítima" à mulher, e não ser vítima só por si, independentemente do sexo.
Vítimas são vítimas, e a violência pode ser física ou psicológica - e esta é pouco estudada, mas poderá ter os homens como vítimas mais frequentes, dado que não depende da relação física de força, mas sim da psicológica, na qual as mulheres são "superiores" (entre aspas).

Milene disse...

Vítimas são vítimas e violência é violência sempre, seja ela física ou psicológica, mas numa coisa concordo com o Mário, na viôlência psicológica as mulheres são mesmo superiores (e arrisco-me a tirar-lhe as aspas). São hábeis e sabem esperar pelo momento certo,e fazem-no muitas vezes duma forma tão subtil, que deixam o parceiro desconcertado e sem reacção. Entra-se na letargia das relações e num nível de violência psicológica que no meu entender ultrapassa muitas vezes qualquer forma de violência física ligth, seja lá o que possamos entender por isso.Uma "boa" discussão no momento certo, resolve muito mais do que o minar sentimentos com mágoas e ressentimentos sucessivos que com o tempo se tranformam em ódios de facto que estão na origem da violência física de que tanto se fala. E é nesta indiferença mútua, que reside a arma com que sobrevivem muitos casais anestesiados pela sua própria violência passiva...., também ela uma forma de violência.

Anónimo disse...

A violência psicológica e verbal é sempre mútua e não vejo como poder medi-la, ou dizer que os homens são menos violentos que as mulheres nesse capítulo.
O silêncio, a reprovação constante nos olhares e na ausência de palavras são tão letais como a torrente de palavras acusatórias. E quanto á violência física, os homens excelam. E matam.
Basta lembrar a frase que muitas sogras usam para os justificarem perante a separação: "ele nunca lhe bateu, não sei porque é que ela se queixa..." ( ouvido da minha pp sogra, dias antes de eu dar à sola).
É sobretudo da ausência e da falta de cooperação do homem, muitas vezes, que nasce a revolta acumulada dentro da mulher ( o contrário tb poderá acontecer, concordo), esta se transforma em tempestade e em tornado ou tsunami. Anos e anos de sobrecarga emocional e física levam ao desespero e por muito que se ame o marido - as vezes no subsconsciente!! - não se aguenta mais viver debaixo do mesmo tecto.

Virgínia

Mário disse...

No fundo, o que fica é saber se o casamento (lido em sentido amplo, como união vivencial entre duas pessoas) pode durar "para sempre", numa altura em que a vida é mais transparente e honesta, em que as mulheres já não aceitam ser escravas do lar, dos filhos e dos maridos, e em que a esperança de vida é cada vez maior.

Devem ser raras as empresas ou projectos que se mantêm durante tantas décadas, com os mesmos sócios.

E se é sempre o sonho de quem casa, de que a sua união seja para sempre (ou não seja a paixão - felizmente! -um estado profundamente patológico, porque neurótico, obsessivo e perturbador da realidade), também não vem mal ao mundo perceber que as pessoas passam pela nossa vida em sinusóides que se entrecruzam e mantêm um percurso paralelo durante algum tempo.

E se esse "algum tempo" for o "sempre" ou se for "apenas o necessário e suficiente", não é motivo para demasiadas frustrações, passado o embate inicial.

Mais vale um bom divórcio do que um mau casamento. E a pessoa de quem devemos gostar mais é aquela que vemos todos os dias, de manhã, no espelho.

Anónimo disse...

O bom do casamento é permitir que se tenham filhos e haja uma continuidade na família. Ainda hoje vi os meus netos após oito meses em Boston e senti uma emoção extraordinária ao abraçar aqueles meninos e pensar que eles existem porque os pais nasceram dum amor que não durou eternamente, mas que foi suficientemente idóneo para os educar e criar para a Vida.
Virgínia