segunda-feira, 29 de setembro de 2008

quando os Homens desafiam os deuses e o destino

Há exactamente cem anos morria Joaquim Maria Machado de Assis, escritor de romances e de contos, poeta e dramaturgo, talvez uma das maiores figuras da cultura literária do Brasil.

O pai, descendentes de escravos libertados, era pintor de paredes. A mãe, portuguesa nascida nos Açores, era lavadeira. Por ser canhoto, Machado de Assis passou as "passas do Algarve" para aprender a escrever com a mão direita.

Com epilepsia e gaguez, ficou orfão muito cedo, e começou a trabalhar, vendendo doces. Estudava nas horas vagas e, ao conhecer uma francesa dona de uma padaria, aprendeu a falar francês correctamente, com o forneiro da loja - foi assim que começou a traduzir Vítor Hugo. Seguiu-se o inglês, e traduziu Edgar Allen Poe. Depois o alemão...

Mas foi aos 15 anos que se estreou com um poema (denominado "Ela" - ver abaixo), colaborando em jornais, como autor e como crítico. Depois começou a publicar livros - muitos. Recordo "Dom Casmurro" ou "Memorial de Aires", que li devia ter quinze anos.

Além de tudo isto, era exímio jogador de xadrez, tendo participado em torneios.

Morreu a 29 de Setembro de 1908. Há cem anos. Mas está sempre presente - ele, a obra dele, e o extraordinário exemplo do percurso de vida dele. Os homens grandes desafiam os deuses e os destinos, quando têm no sangue a têmpera de vencedores.


ELA

Seus olhos que brilham tanto,
Que prendem tão doce encanto,
Que prendem um casto amor
Onde com rara beleza,
Se esmerou a natureza
Com meiguice e com primor

Suas faces purpurinas
De rubras cores divinas
De mago brilho e condão;
Meigas faces que harmonia
Inspira em doce poesia
Ao meu terno coração!

Sua boca meiga e breve,
Onde um sorriso de leve
Com doçura se desliza,
Ornando purpúrea cor,
Celestes lábios de amor
Que com neve se harmoniza.

Com sua boca mimosa
Solta voz harmoniosa
Que inspira ardente paixão,
Dos lábios de Querubim
Eu quisera ouvir um -sim-
P’ra alívio do coração!
Vem, ó anjo de candura,
Fazer a dita, a ventura
De minh’alma, sem vigor;
Donzela, vem dar-lhe alento,
“Dá-lhe um suspiro de amor!”

1 comentário:

sofia disse...

Tinha ouvido de manhã no rádio. Harold Bloom, no seu livro "Génio", considera Machado de Assis um dos 100 autores mais criativos da história da literatura. Sou apaixonada por literatura e por Machado de Assis... Uma boa semana para todos!