quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Sophia




"Quando eu morrer voltarei para buscar
Os instantes que não vivi junto do mar
"


Faria hoje 89 anos. Parabéns.
E obrigado por tudo o que nos deixou.

7 comentários:

JB disse...

"Era uma vez uma quinta toda cercada de muros.
Tinha arvoredos maravilhosos e antigos, lagos, fontes, jardins pomares, bosques, campos, e um grande parque seguido por um pinhal que avançava quase até ao mar.
A quinta ficava nos arredores de uma cidade. O seu pesado portão de ferro forjado estava pintado de verde. Quem entrava via logo uma casa grande rodeada de tílias altíssimas cujas folhas, de um lado verdes e de outro lado quase brancas, palpitavam na brisa."

A Floresta

É em frente a esta maravilhosa " quinta - hoje o jardim Botânico do Porto - que tenho a sorte de viver. E não digo morar porque olhar este esplendor das tílias e carvalhos doirados no outono, sentar-me junto aos lagos de nenúfares, que reflectem a folhagem à volra, sonhar por baixo dos salgueiros de esmeralda iluminados pelo sol, é muito mais do que se pode ambicionar na minha idade.

Sophia passava aqui as férias com o primo Ruben A., cujo livro " O Mundo à Minha Procura I", descreve a casa e o jardim do Campo Alegre, onde viveu grande parte da sua meninice e juventude.

Passeio lá com os meus netos e eles acreditam fervorosamente que há anões dentro dos troncos das árvores e que o Mafarrico e Sonso do Noddy estão escondidos junto ao charco das rãs. Um dos meus netos faz hoje 5 anos.

O mundo de Sophia entrou há três anos pela minha casa e pela minha vida adentro.

JB disse...

Rectifico não sou JB mas Virgínia, como é de compreender.

miguel disse...

O Porto é, para mim, uma cidade quase desconhecida. Quer dizer, em jovem estive lá uma semana mas como era jovem , depois do trabalho ( fui lá como músico) queria era farra. a beleza da cidade ou dos seus cantinhos, passou-me completamente ao lado. Hoje em dia, vou descobrindo o Porto, aos poucos, cada vez que lá vou. Não sei se é pela luz pálida, tão diferente de Lisboa, se pela vegetação, que representa e confirma um clima diferente do daqui, onde vivo,, se por Serralves , a sua arquitectura e o bairro onde está situado,se pela novíssima Casa da Música que é uma nova âncora, se pelas margens do Douro e as suas esplanadas,se pelas letras do Carlos Tê, o que é certo é que cada vez mais tenho vontade de conhecer , com calma, essa cidade.

Vou lá uma vez por ano, quando me hospedo no hotel do Luso, geralmente entre o Natal e o Ano novo.Portanto, daqui por um mês, o Porto que se alinde, porque provavelmente lá estarei.

cris disse...

Lindíssima a "viagem" que, de mão dada com a Sophia, fazemos, se pegarmos no "Primeiro Livro de Poesia" (poemas em língua portuguesa para a infância e a adolescência, seleccionados por esta Poetiza maior e tão deliciosamente ilustrado por Júlio Resende).- Editora Caminho

Diz ela, "que aquele livro não é uma antologia"... "Trata-se sim", continua, "duma iniciação, destinado à infância e à adolescência, onde procurou reunir poemas , que, sendo verdadeira poesia, sejam também acessíveis.".
"Muitos poderão achá-lo difícil," mas, como ela tão bem explica, "a cultura é feita de exigência". Afastou o infantilismo, o simplismo, pois que, como ela diz, "Uma criança é uma criança mas não é pateta". Por isso, "não faz divisões etárias. Nunca sabemos bem o que uma criança entende ou não entende e quais os caminhos do seu entendimento. Aliás, como os adultos, as crianças são diferentes umas das outras. Por isso, o livro está aberto a todos, para que a Todos esteja aberto o acesso à sua plena possibilidade."
Espera a Sophia "que os poemas que escolheu sejam lidos em voz alta", pois "poesia é oralidade, mestra da fala: quem, ao dizer um poema, salta uma sílaba, tropeça, assim como quem, ao subir uma escada, falha um degrau"

Curioso ver o trabalho por ela desenvolvido, para, através da criança, enquanto um ser tão vivo, curioso, ansioso de tanta coisa, chegar a todos.
Depois de compilar, rever, retirar, acrescentar, muitos dos poemas, em 1989, combinou com a Ed. Caminho a publicação do livro. Corria já 1990, era então ministro da Educação, Roberto Carneiro, e, num encontro no Ministério, convidados que haviam sido, vários escritores de literatura infantil, o ministro mencionou a sua intenção de publicar uma antologia para a infância.
Quando foi chegada a vez de Sophia falar, ela levantou-se:
"Acho mais leal..." (não se pode deixar de sorrir docemente, como que aplaudindo e acarinhando a atitude tão clara, tão pueril desta Senhora que tão bem sabia da arte de cuidar a palavra)" dizer que tenho já pronto um livro semelhante, onde incluí obras dos oito paises de língua portuguesa."
Roberto Carneiro disse " Então não faremos outro livro"
Ainda que não seja, tal como a Sophia afirma, "um livro de ensino, apesar de ter tido o apoio do Ministério da Educação, na altura, ela quis, acima de tudo "mostrar o Poema em si próprio, que chegasse àquelas crianças e adolescentes a quem a sua escolha tentasse propor um horizonte vasto, múltiplo, diverso, aberto" ,pois, Acreditava, que só a arte é didáctica".

Está a chegar a época dum presente.
Tenho a certeza de que a Sophia irá gostar de ver, como os nossos filhos, e, nós, nos deliciaremos a fazer, mão dada com ela, esta sua maravilhosa viagem pelo mundo tão belo da Poesia.

Desculpa, Miguel,ter tomado aqui tanto espaço, mas, admiro por demais esta escritora.
Nada melhor do que partilhar dela, todo este seu carinho, todo o respeito e admiração que ela sempre teve pelos nossos filhotes ao longo da sua vida.

Não posso deixar de salientar aquela oportunidade que me foi dada de participar dum trabalho similar, teu: "Poesia do Nascer".
Vai sempre a tempo, sempre, esta vontade que eu tinha de te dizer: Obrigada, do coração!

Beijo e votos de um fim de semana com muita Poesia!

Lucibelya disse...

Textos interessantes...em especial o "et in terra pax hominibus"...cómico. Não pude deixar de comentar este último post. Sophia está entre as primeiras autoras que li na minha infância. Ainda me lembro da Fada Oriana...

(:

Mário disse...

Leio e releio os poemas de Sophia. O mar, o amor, a humanidade. A vida. Mas ao mesmo tempo, o idealismo, a convicção, a força.
Deve ter sido muito bom ter sido Sophia.

Como descreve Jorge Reis-Sá, no seu último livro, um dia bateu à porta de casa dela, sem mais. Foi recebido. Ofereceu-lhe um chá. Conversaram. E depois pediu amavelmente para sairem porque tinha de descansar.

Assim. Quem me dera ter tido a oportunidade de ver, ao vivo, esta Senhora. Leio-a. E releio-a. E cada vez me marca mais.

Virginia disse...

Li coisas sobre Sophia com que me identifico totalmente: o mar e a liberdade de sair de casa são-me essenciais, mesmo quando fico fechada dentro de 4 paredes, numa cidade.

Para mim, Deus é a Natureza e todos os bens essenciais que temos nos serão supérfluos se nos afastarem do nosso habitat natural que é o mundo extrior.

Se deixarmos de respirar o ar puro das montanhas ou a brisa dos oceanos, morremos por dentro.

Há muita gente que já morreu, que só anda de carro, que não faz um percurso a pé durante meses, que nunca vê o mar, que nunca sobre a uma montanha...já estão mortos.

Vou comprar mais livros de Sophia e lê-los junto à árvore da "Floresta", donde os anões saem a correr para me vir abraçar.