Ary dos Santos. Um grande Poeta português. Morreu faz hoje vinte e cinco anos.Nasceu em Lisboa em 1937, e saiu de casa aos 16 anos, exercendo várias actividades para sobreviver.
Publicou vários livros: Asas (1953), Liturgia de Sangue (1964) Azul Existe, Tempo de Lenda das Amendoeiras e Adereços, Endereços (todos de 1965), Insofrimento In Sofrimento (1969), Fotos-Grafias (1971), Resumo (1973), As Portas que Abril Abriu (1975), O Sangue das Palavras (1979) e 20 Anos de Poesia (1983). Em 1994, foi editada uma colectânea das suas obras.
Em 1969, colaborou na campanha da Comissão Democrática Eleitoral e, mais tarde, filiou-se no Partido Comunista Português, mantendo embora um estilo muito pessoal de fazer política - a palavra.
Conhecido também como autor de poemas para canções dos Concursos da RTP (basta relembrar Desfolhada, Cavalo à Solta ou Tourada, entre outras. Irreverente, corajoso, satírico, politica e socialmente incorrecto, apaixonado, vibrante, triste, desiludido, sonhador, deixou cerca de 600 textos destinados a canções.
Original é o poeta
que se origina a si mesmo
que numa sílaba é seta
noutro pasmo ou cataclismo
o que se atira ao poema
como se fosse um abismo
e faz um filho às palavras
na cama do romantismo.
Original é o poeta
capaz de escrever um sismo.
Original é o poeta
de origem clara e comum
que sendo de toda a parte
não é de lugar algum.
O que gera a própria arte
na força de ser só um
por todos a quem a sorte faz
devorar um jejum.
Original é o poeta
que de todos for só um.
Original é o poeta
expulso do paraíso
por saber compreender
o que é o choro e o riso;
aquele que desce á rua
bebe copos quebra nozes
e ferra em quem tem juízo
versos brancos e ferozes.
Original é o poeta
que é gato de sete vozes.
Original é o poeta
que chegar ao despudor
de escrever todos os dias
como se fizesse amor.
Esse que despe a poesia
como se fosse uma mulher
e nela emprenha a alegria
de ser um homem qualquer.

































