domingo, 21 de dezembro de 2008

Poemas de Natal 12 - Camilo Pessanha

Rosas de Inverno - Camilo Pessanha



Corolas, que floristes
Ao sol do inverno, avaro,
Tão glácido e tão claro
Por estas manhãs tristes.
Gloriosa floração,
Surdida, por engano,
No agonizar do ano,
Tão fora da estação!
Sorrindo-vos amigas,
Nos ásperos caminhos,
Aos olhos dos velhinhos,
Às almas das mendigas!
Desse Natal de inválidos
Transmito-vos a bênção,
Com que vos recompensam
Os seus sorrisos pálidos.

4 comentários:

miguel disse...

Outro poema belíssimo. Estou aqui a pensar. Nos projectos de escola devia estar previsto o seguinte: a publicitação semanal de um poema de u dos inúmeros poetas de qualidade que Portugal tem. O jogo de palavras pode ser mágico; se essa magia chegar cedo, a muitos jovens, de certeza que, globalmente, o país fcará a ganhar.Um autêntico investimento.

joaopedrosantos disse...

Concordo com o Miguel. (E essa proposta, mesmo que seja só seguida por uma minoria, há-de sempre valer a pena). Este poema, mais do que um jogo de palavras, parece-me um "lembrete". O Natal é, sobretudo, para recordar. Das coisas belas e daqueles que, embora injustamente, são demasiadas vezes esquecidos. Até porque, contrariamente ao que muito se diz, nem acho negativo lembrarmo-nos mais nesta altura do ano. Claro que "devíamos" lembrar-nos todo o ano, mas se, de facto, tal não acontece, deixem lá alguma espaço de manobra para muitas pessoas compensarem. É melhor que nada.

Seguidamente, quero apenas pedir licença e desculpa ao nosso blogger para abrir um parêntesis. Ficou um assunto pendente, mas saí de fim-se-semana e só agora posso concluir a discussão. É sobre o Poema do Pessoa. Quero tentar transmitir à Virgínia o que o poema me transmite a mim, tentando contagiá-la um pouco com a beleza da quadra derradeira. A forma mais simples de explicar é, sem dúvida, fazendo batota. Porque digo isto? Porque Pessoa não tinha propriamente isto em mente. Vou usar os filmes de Natal de Hollywood. Pois imagine-se numa casa dessas, desses filmes, com essa tal lareira, com essa família feliz, com essa camisola de lã a que podemos ligar o adjectivo "natalícia". Ora, estando nesse fantástico ambiente, decide olhar lá para fora. Está a nevar. "Cereja no topo do bolo". Tudo está perfeito. Tudo entra no carácter nostálgico e melancólico dos poemas de Pessoa. A nostalgia e melancolia não existem nesse cenário (que é de extrema felicidade) mas sim na sua antítese, na não-existência de um lar feliz, de uma infância colorida e "aquecida" pela tal fantástica lareira. E para culminar a ausência de tudo isso no passado, as circunstâncias da sua vida impedem-no de ambicionar "esse lar que nunca terá" e a paisagem que nunca apreciará.

Virginia disse...

Obrigada, João Pedro, gostei da interpretação e concordo com ela....

Bom Natal!

Mário disse...

Miguel: Já fiz às Escolas dos meus filhos essa proposta e creio que serão aceites. A poesia é compreendida pelas crianças porque tem sentimentos, recorre a rima e a ritmo, e expressa muita coisa em poucas palavras.
Talvez por isso elas gostem tanto -vejo pelos meus filhos, que todos os dias ouvem um poema e vão conhecendo, a pouco e pouco, o extraordinário legado dos poetas portugueses.

João Pedro e Virgínia: inteiramente de acordo. "O poeta é um fingidor"...