domingo, 25 de janeiro de 2009

se eu conseguisse... qual o segredo, Père Hugo?


Desejo primeiro que ame,
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.
E que esquecendo, não guarde mágoa.

Desejo, pois, que não seja assim,
Mas se for, saiba ser sem desesperar.

Desejo também que tenha amigos,
Que mesmo maus e inconseqüentes,
Sejam corajosos e fiéis,
E que pelo menos num deles
Possa confiar sem duvidar.

E porque a vida é assim,
Desejo ainda que tenha inimigos.
Nem muitos, nem poucos,
Mas na medida exacta para que, algumas vezes,
Se interpele a respeito
De suas próprias certezas.
E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
Para que não se sinta demasiado seguro.

Desejo depois que seja útil.
Mas não insubstituível.
E que nos maus momentos,
Quando não restar mais nada,
Essa utilidade seja suficiente para o manter de pé.

Desejo ainda que seja tolerante,
Não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
Mas com os que erram muito e irremediavelmente,
E que fazendo bom uso dessa tolerância,
Sirva de exemplo aos outros.

Desejo que, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais,
E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer
E que sendo velho, não se dedique ao desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor
É preciso deixar que eles escorram por entre nós.

Desejo por sinal que seja triste,
Não o ano todo, mas apenas um dia.
Mas que nesse dia descubra
Que o riso diário é bom,
O riso habitual é insonso e o riso constante é insano.

Desejo que descubra,
Com a máximo urgência,
Acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos,
Injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta.

Desejo ainda que afague um gato,
Alimente um cuco e ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal
Porque, assim, se sentirá bem por nada.

Desejo também que plante uma semente,
Por mais minúscula que seja,
E acompanhe o seu crescimento,
Para que saiba de quantas
Muitas vidas é feita uma árvore.

Desejo, outrossim, que tenha dinheiro,
Porque é preciso ser prático.
E que pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele
Na sua frente e diga “Isso é meu”,
Só para que fique bem claro quem é o dono de quem.

Desejo também que nenhum de seus afectos morra,
Por ele e por si,
Mas que se morrer, possa chorar
Sem se lamentar e sofrer sem se culpar.

Desejo por fim que sendo homem,
Tenha uma boa mulher,
E que sendo mulher,
Tenha um bom homem
E que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,
E quando estiverem exaustos e sorridentes,
Ainda haja amor para recomeçar.

E se tudo isso acontecer,
Não tenho mais nada a desejar.


Tirando os gatos e substituindo por cães, concordo com tudo.
Grande Victor Hugo!

31 comentários:

Virginia disse...

Lindo, temperado, sábio.

joão-de-barro. O que é ??? ( não tem a ver com o meu filho , pois não??

Bjo

Mário disse...

O joão-de-barro ou forneiro (Furnarius rufus) é uma ave Passeriforme da família Furnariidae.

É conhecido por seu característico ninho de barro em forma de forno (característica compartilhada com muitas espécies dessa família). É a ave símbolo da Argentina, onde é chamado de hornero ("Ave de la Patria" - desde 1928).

(Wikipedia)

Bom Domingo!

Milene disse...

Lido é tão lógico e tão simples, que até parece fácil vivê-lo assim. Mas viver e sobretudo saber viver é mesmo tudo isso. É que se conseguirmos satisfazer o primeiro desejo de amar e ser amado, tudo o resto se torna mais fácil. Um amigo meu dizia-me que o mais importante é termos alguém que goste muito de nós: pois eu penso como Victor Hugo: 1º amar e depois também ser amado. Só assim se pode viver a vida plena e intensamente...

Mário disse...

Concordo, Milene, mas será que aos vinte, vinte e picos, teríamos "pachorra" para ler este belo poema/declaração e pensar que o nosso percurso de vida deveria seguir este rumo?

Aos 53, não tenho dúvidas que sim, mas será porque passei algumas passas de alguns Algarves, porque comi o pão que o Diabo amassou, e porque me reconheço, nesta minha "segunda vida" - com a Catarina, os filhos e os netos -, nas palavras de Victor Hugo, e principalmente vejo-as realizáveis e a acontecer?

Heureux celui qui meurt d´aimer - escreveu Jean Ferrat - eu acrescentaria "et qui meurt aimé.

Virginia disse...

Mourir aimés...o que todos desejamos, já que depois de mortos todos nos amam....

Elisete disse...

Tirando os gatos e substituindo por cães (grandes, de preferência):
não concordo com a parte da tolerância nem com os que erram muito, nem com os que erram pouco. Para mim tolerar erros é cruzar os braços e permanecer indiferente e permitir novo erro e por aí adiante;
não concordo com a parte dos “amigos” porque não acredito na amizade, muito menos com pessoas más e inconsequentes. Aliás, se só posso confiar num sem duvidar, então é porque só tenho um amigo, não tendo amigos.
E como a Virgínia tem razão! É preciso morrer para se ser amado por todos. Que hipocrisia!
Concordo que aos vinte e picos não se tem “pachorra”. Por outro lado, aos 43 apesar de se conseguir apreciar a beleza do poema (indiscutível!), não se aceita tudo sem discussão (principalmente a parte dos gatos).

Elisete disse...

Queria dizer: "... só tenho um amigo, não tenho amigos." e não "tendo".

Catarina L. disse...

Aos 37 as ambivalências ainda são muitas, no entanto já dá para apreciar este belo poema, que é por si só controverso.

"Inside the box, are always two or more games"… basta decidir se vamos ou não jogar.

Mais que desejos este poema revela opções. Relembra caminhos a tomar.

Concordo, menos gatos e mais cães. Mas já não concordo, amigos maus e inconsequentes coloco-os numa prateleira à parte…

Quer aos 30, 40, 50 ou 60… o facto de se viverem várias vidas durante a vida, permite que possamos perspectivar o banal com maior detalhe. E acreditar. :)

Mário disse...

Elisete
Em primeiro lugar, o poema tem uma lacuna terrível: falta falar dos excelents bolinhos do Mi, sem os quais a vida não sabe a nada.
Depois, creio que pode haver um erro de tradução: "mau" não será "malin"? Vou investigar.
Mas creio que o essencial está lá: a fidelidade dos amigos, mesmo "maus". Uma vez tive uma discussão com Mário Soares sobre a visita que ele fez a Betino Craxi, na altura foragido na Tunísia à Justiça italiana.
Achei pouco próprio ter sido feito durante uma viagem oficial, embora mesmo nessas viagens haja momentos privados (nem que seja ir à casa de banho), mas quanto ao resto, ele considerou que era amigo de Craxi, e que, concordando ou não com o que ele tinha feito, não seria momento de o abandonar, e que não era a ele a quem competia prendê-lo ou extraditá-lo.

Quando são maus e inconsequentes, mas deixam de ser amigos, então sim, rua! Como os gatos".

Porque é que, se aos 20 anos não temos a dita "pachorra", à medida que o tempo passa temos mais pachorra mas cada vez mais dúvidas?

Elisete disse...

Ou dos desenhos lindos do Tomás, ou da vozinha que à noite nos diz: “Mamã, gosto tanto de estar aqui!”, “Onde Miguel?”, “Na nossa casa, contigo e com o Papá.”
Quanto às dúvidas, só sei que gostava de ter duvidado mais quando tinha 20 anos.

Catarina L. disse...

O meu mano (20 anos mais "grandito") num período critico da minha vida, enviou-me uma mensagem que dizia:

- na vida, a única certeza é a dúvida ela mesma.

Lembro-me de ter sorrido, e aceitei com maior tranquilidade o turbilhão do momento. Ainda que as dúvidas andem sempre por aí...

:)

Virginia disse...

Não sei bem, Mário, se essas amizades como as de Mário Soares, são dignas desse nome, parece-me que são todas convenientes e que amigos ajudam amigos e passam o tempo nisso, sem consolidar verdadeiramente as amizades. Ninguém pode ter uma infinidade de amigos e muitos são-no porque se tem uma projecção comveniente e nunca se sabe, pode ser que dê jeito, num país como o nosso onde os interesses estão sempre acima do bem comum.
Não sei se aos 20 anos acreditava em fadas e em amigos, creio que sim, mas depressa me desiludi. Os amigos na profissão perdem-se quando nos aposentamos, vêem-se de quando em vez é tudo sorrisos, porque por trás fica a má língua...:)
Amigos a sério só na escola, na universidade...depois é o turbilhão da família, do marido e dos filhos e os amigos dos filhos e os alunos e tudo o resto que nos separa da sociedade.
Creio que sou muito céptica tb devido a estar afastada de Lx onde passei toda a minha juventude. Vivendo longe, depressa se vão os laços e os nós só se dão na família.

Elisete disse...

É exactamente isso que eu penso, Virgínia. Mas olhe que não me parece que seja a distância quer desfaz os nós, quem os desfaz somos mesmo nós e os outros. Quanto aos laços, sim, só mesmo na família.

Mário disse...

Quanto a Mário Soares, por acaso creio que a amizade com Craxi era mesmo a sério, o que não direi de muitas outras, mantidas por adulação ou oportunismo.

Os amigos querem-se bons - e por isso, será difícil ter muitos, até porque é necessário dar-lhes tempo e dar-lhes do nosso tempo.

Mas é preciso amigos que sejam amigos: que não nos digam sempre "amén", que nos critiquem, que saibam aceitar-nos mas que nos apontem, suave e docemente, as coisas em que poderíamos melhorar (e vice-versa). Com os quais possamos contar e que psosam contar connosco.

Mas como as relações humanas se desenvolvem em sinusóides, que se entrecruzam, pode dar-se o caso de uma amizade não ser para a vida, mas para partes da vida, que nos complementam mas que podem deixar de nos fazer falta ou nós a elas.

Diz-se que os amigos se escolhem e os irmãos não: por isso poderá haver irmãos mais amigos e outros menos. Sem dramas...

Virginia disse...

Elisete tem razão quando diz que somos nós que desfazemos os nós. Sem dúvida. Ás vezes sinto que não tenho qualquer tolerância para com as pessoas em geral, dai não conservar muito amizades. E correndo o risco de parecer arrogante , diria que as pessoas , em geral, gostam mais de mim do que eu delas....o defeito deve ser meu.Mea culpa.

sofia wahnon disse...

Mas que conversa interessante, acho que tenho que vir espreitar mais vezes…
É que eu pensava assim e nunca o tinha verbalizado ou até pensado… ou seja, que as amizades, tal como os amores, podem ser não “para a vida” mas antes para “partes da vida”. Se vivêssemos em linha recta…mas o mais certo é que não. Já tive amigos muito importantes para mim no passado e que hoje o são menos e eu para eles (mas também vice-versa). No entanto, mesmo assim, não os (me) vejo como “amigos de ocasião”, até porque algures numa dessas contra-curvas conseguimos dar e esticar a mão… Simplesmente a vida é saturante (e saturada). Talvez a excepção sejam os filhos. Não é que eu não me canse do meu, e muito por vezes, mas nunca consigo ficar longe dele por maior período de tempo. Não sei como será quando formos, mãe e filho, mais velhos…Este sentimento também se transformará?

joaopedrosantos disse...

Sinto-me forçado a expressar a minha total discórdia perante as afirmações de que pelos "20s" não se tem a paciência para ler o poema ou sequer prestar-lhe atenção.
Para além de emocionante pela forma como é escrito, revela uma enorme capacidade de síntese do autor, que se vê que aborda com profundidade todas as etapas e características da vida, dedicando-se a estas meta a meta.
Este poema (prefiro pensar nele, sobretudo, como uma carta) espelha tudo o que a experiência pode oferecer. Victor Hugo faz questão de transmitir as regras que deverá ter aprendido no decurso da sua vida, que pelo que vejo, deve ter sido rica em emoções.
Pois, que há de mais importante que aproveitar a vida? Só temos uma! E este senhor (perdão, Senhor) exibe aqui a sua tentativa de sensibilização para a beleza na fortuna e nas vicissitudes da vida.
Só valorizamos algo quando o perdemos ou estamos em vias de o perder. O que aqui acontece, nestas lindas linhas, é um homem em mais uma tentativa de oferecer uma perspectiva do que há e do que poderá haver, precavendo quem irá viver estas etapas, de forma a que as ultrapasse e as desfrute com sucesso.
Que nunca se deixe de tentar difundir o quão a vida é preciosa. Que nunca se deixe de tentar orientar aqueles que, estando a introduzir-se nestas coisas, a que chamamos vida, mais precisam de orientação. Ainda por cima desta forma, quente, mas realista.
Obrigado pela partilha deste "pedaço" de Victor Hugo!

Mário disse...

Acredito cada vez mais que somos uma pessoa mas com múltiplos heterónimos - e que cada um procura a felicidade e o seu complemento noutras pessoas.

Há relações familiares, conjugais, amizades... podem durar o que devem durar e vice-versa. Tentar mantê-las a contragosto dá asneira. As pausas, por vezes, mesmo prolongadas, podem ser . como na música - fundamentais. Noutras vezes já tudo se extinguiu, ou quase tudo, mas vale o que vale pelo que valeu.

Quanto aos filhos, é diferente porque são parte de nós - carregam o nosso ADN, cicatrizam as feridas que nos fizeram na infância, mimam-nos ao deixarem (pedirem-nos para) dar-lhes mimo. São nós, e nós seremos sempre nós, até ao fim. Mesmo que sós.

Mário disse...

João Pedro
O meu comentário entrou segundos depois do teu, portanto deixa-me atestar aqui, claramente: "tu não tens 20 anos!". De idade, talvez, de (matur)idade não, com certeza...

Mário disse...

João Pedro
O meu comentário entrou segundos depois do teu, portanto deixa-me atestar aqui, claramente: "tu não tens 20 anos!". De idade, talvez, de (matur)idade não, com certeza...

Virginia disse...

Depois de reflectir, cheguei à conclusão de que as amizades que temos pela vida fora são-no totalmente durante anos e depois, mesmo que haja hiatos ou pausas ficam na memória, como as cinzas incandescentes, podendo reacender-se a qualquer momento.
A distãncia rouba a oportunidade desse reacendimento, a família absorve-nos o tempo e a disponibilidade durante anos, especialmente se temos filhos. e por vezes, as amizades desvanecem-se. Outras vezes dá-se um conflito e embora houvesse amizade, quebrou-se o elo, nunca mais se volta a sentir o mesmo. Já me aconteceu.

Mário disse...

Virginia
Não creio que a distância roube a amizade, designadamente quandoa comunicação é agora tão fortemente possível. Acabo, por exemplo, de receber há momentos um mail de Timor. Tenho amigos espalhados pelo mundo e re-encontro-os com a ideia de que os vi ontem. AS conversas retomam-se no ponto onde ficaram, se hiatos.

Outros amigos passaram, é engraçado re-encontrá-los num café ou centro comercial, mas fica por aí, quanto muito com um "um dia destes temos de almoçar".

Outros esgotaram-se. Mas deram o que tinham para dar (e nós a eles, provavelmente) porque se há coisa que aprendi é que não se pode exigir mais sumo do que uma laranja pode dar. Mas também não é necessário continuarmos a venerar o cascabulho.

Elisete
Quanto à tolerância, lembro-me de umas palavras do meu grande Amigo Joaquim Coelho Rosa (que por acaso acaba de ir viver para o Brasil, e que é daquelas pessoas de quem sinto saudades de um abraço físico), que dizia devermos ser muito intolerantes para nós próprios, e que a intolerância para os outros deve passar mais pelo rigor e exigência de qualidade do que pela emissão de juízos de valor, porque muitas vezes não sabemos exactamente o que pode estar por detrás de atitudes duras ou "intolerantes".
Todos nós temos percursos de vida difíceis, e é normal, como as ostras, desenvolvermos carapaças e conchas para nos abrigarmos. Mas depois, quando nos abrimos, podem surgir pessoas tão moles como os bolos do Mi - moles no sentido físico do termo, não no sentido de carácter.
Connosco, sim. Devemos ser intolerantes, e não aceitar quem não desejamos ou situações que definitivamente não queremos.

Finalmente, quanto ao Amor, creio que é onde desagua tudo - no amor e no desamor, que explicam a doçura ou a acidez das pessoas. E mesmo perdidos na maior das tempestades, náufragos na intemérie dos nossos sentimentos, podemos amar alguém, algo, alguma coisa, a nós próprios.

Desculpem a verborreia, mas é poara espicaçar (ainda mais) esta discussão, com a qual estou a aprender, porque me faz reflectir, concorde ou não com o que se vai escrevendo.

Merci, Père Hugo!

Mário disse...

PS: É exemplo disso o que coloquei agora no espaço lateral "Um momento entre as nuvens"...

Anónimo disse...

Mas hás-de concordar que não se podem colocar as coisas de modo absoluto - muitas pessoas podem influenciar-nos mais do que a família ou os filhos...

Mário disse...

Anónimo
Concordo em absoluto.Há vários tipos de amor, há varios tipos de complementaridade e, mais, acredito que há formas quase inimagináveis de "reparação" ou "substituição".
A família e os filhos podem dar-nos grandes patadas, embora sejam sempre relações intensas, as fraternais, parentais e filiais - daí as zangas, quando acontecem, doerem muito.

Mas claro que há outras pessoas - as que se amam, por exemplo numa relação "de casal" - são pessoas únicas e insubstituíveis, que nos dão algo que nenhum dos outros "círculos" pode dar - entrega, física e emocional , cumplicidade, alegria, projectos a dois. Esta faceta é irrepetível noutro tipo de relação. Felizes os que (como eu) vivem essa realidade.

Finalmente, o sentido de reparação é muito grande: reparamo-nos nos filhos mas afiliamos outros quando não os podemos ou queremos ter: sejam alunos, sejam outras crianças, sejam obras criativas nas quais deixamos a nossa impressão digital, sempre com a esperança que alguém se deixe influenciar por ela e a carregue para o infinito através das suas (dele) próprias relações ou filhos.
É por isso que, apesar de gregários, vamos muito além disso.

Mas pelo que vejo, a discussão ainda está no adro...

Virginia disse...

Com a minha idade, descubro que são mais importantes para mim as pessoas que no dia-a-dia encontro por acaso, o homem que me serve no café, o porteiro da casa onde vivi, a menina da confeitaria, as empregadas do colégio onde os meus filhos andaram e agora anda o meu neto, a minha própria empregada a quem tenho amizade ( ainda que paternalista), o guarda do jardim Botãnico que me faz um sorriso quando o encontro, tudo pessoas de ocasião que preenchem alguns vazios deixados pelos meus alunos e algumas colegas da escola onde trabalhava. Lembro-me que a minha Mãe ultimamente se agarrava muito a este tipo de pessoas que nos são mais queridas que muitos dos supostos amigos, que não vemos há meses, que nonca pegam no telefone para saber de nós...mas para pedir um favorzinho...

Ser amargo é próprio da velhice. Mas eu acho que sou realista.

Elisete disse...

Não concordo que ser amargo seja próprio da velhice. Podemos “amargar” em qq idade dependendo de quantas vezes levámos uma bofetada e de quantas vezes demos a outra face. E tb podemos continuar amargos para o resto da nossa vida ou não. A Virgínia é realista, não tenha dúvidas. E também acho que não tem a ver com a idade o facto de considerar mais importantes as pessoas que encontra no dia-a-dia. Eu, por exemplo, também as considero mais importantes. Já tive oportunidade de dizer que não acredito na Amizade mas acredito em actos de amizade. E estes podem ser praticados por qualquer pessoa e relativamente a qualquer pessoa.

Mário disse...

Elisete
A Amizade vale enquanto valor. Para lá dos actos de amizade.
É qualquer coisa que transcende a soma. É por isso que se têm poucos "verdadeiros" amigos, alguns amigotes e muitos amigalhaços. E é por isso que os familiares têm de mostrar que são amigos, tal e qual como as outras pessoas.
Agora, estou de acordo com a Virgínia que a Amizade, enquanto conceito, s eencontra realizada em múltiplas situações - como as pessoas que se vão encontrando aqui e ali.
Neste local ermo e solitário, tenho prova disso - no fundo, prova de Humanidade.
Abraços
PS: e para quando a prova de um caril?

Elisete disse...

Para quando quiser. Olhe que quando estou para aí virada consigo fazer um caril excelente.

disse...

Victor Hugo parece querer criar o Homem perfeito. Mas para isso o poeta não cai num irrealismo fácil.
Reunindo os males do mundo e as maldades das pessoas, utiliza-os como ingredientes agridoces para a criação de um Homem (ou Mulher, claro) sublime. Esta é a minha interpretação.
Outras haverão e variadas. Tantas que este poema tem tantos autores quantos aqueles que o lerem. Nele depositarão o seu estado de espírito e logo a interpretação muda com o seu sentido.
Victor Hugo deu o poema à luz. Daí em diante este é órfão de um exercício de hermenêutica que causará discórdias e polémicas... Como a da amizade:)

Virginia disse...

Essa do caril deixou-me aguada....mas há aqui um restaurante excelente no Porto - o Mendi - que tem fama!! E lá o caril de gambas é de morrer...:))

Quanto ás amizades, continuo a achar que têm de ser alimentadas por nós a toda a hora e se não forem, acabam por ser só memória.
E, Mário, a distãncia acaba com elas muitas vezes ( não tens essa experiencia porque sempre viveste em Lisboa) pois não é pelo telefone ( na Beira Baixa nem sequer o tinha) ou por e-mail que se conservam as amizades, ainda que se possam alimentar dessa maneira e até criar amizades online. Tenho um amigo já há dez anos que vive em Cascais e me telefona periodicamente ou vem ao Porto para me ver. Conheci-o online e ele é vinte e cinco anos mais novo que eu, mas somos mesmo amigos.

Milagres da tecnologia.