segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

ainda os pés: Joanetes... por Miguel Leal


O binómio fascínio/repulsa é uma parceria muito explorada por poetas e novelistas. É um bocado como aquela inflamação na gengiva que procuramos incessantemente, por compressão, embora saibamos que nos vai causar dor. Os joanetes são o meu objecto daquele binómio. Embora os considere uma deformação repelente, não consigo deixar de os explorar, incessantemente, com o olhar. Conheci vários joanetes exuberantes.


Recordo dois, apesar de tudo, com alguma ternura. O da minha querida avó e o da Senhora Adriana. Eram dois senhores joanetes em que o dedo grande do pé se encavalitava no dedo seguinte numa performance de puro contorcionismo. Eu era uma criança, mas lembro-me do fascínio que exerciam em mim aqueles caprichos da anatomia. Acredito que a Senhora Adriana gostasse de mim pela minha simpatia e boa educação e tenho a certeza que nunca lhe passou pela cabeça aquilo que me passava pela cabeça acerca dos seus pés...

A Senhora Adriana era, aliás, um amor de pessoa, sempre prestável e de sorriso constante na cara. Eu gostava muito dela, porque as crianças são muito sensíveis aos adultos genuínos e afáveis. Nesse aspecto, as crianças têm uma capacidade notável de “radiografar” personalidades e comportamentos. Tinha vários filhos e aqueles verões eram, para a Senhora Adriana, sinónimo de correria pelas ruelas do Baleal, prestando todo o tipo de serviços às senhoras de Lisboa, de modo a garantir o sustento dos filhos nos duros meses de Inverno.

Um dia, eu disse-lhe que os americanos tinham ido à lua – vejam bem aos anos que isto se passou - e lembro-me de ela ter rido como se lhe estivesse a dizer uma mentira. Percebi novamente que estava a ser genuína. Tive então um comportamento algo precoce – decidi não insistir naquilo que era a notícia do dia - porque percebi que, para ela, dizer que o Homem tinha ido à lua era o mesmo que dizer que tinha sido visto um marciano a beber uma cerveja na “Preciosa”. Percebi, também, que havia pessoas paradas no tempo, naquele Portugal de Salazar.

Mas não a esqueço. Fui vendo-a, a espaços, até saber que tinha morrido. Os filhos andam pelo Baleal, todos simpáticos, com ar de quem para eles, a vida não é a luta pela sobrevivência que a mãe protagonizou.

Quanto aos joanetes, sempre os associei à velhice. Por acaso ou não, o meu joanete, que é a marca actual de uma certa decadência pessoal, rivaliza, de certeza, com os mais fantásticos joanetes do século XXI.

Mas isso vou tirar a limpo no próximo Verão.

4 comentários:

Unknown disse...

Que delicia lembrar-me da dona Adriana (minha vizinha desde sempre no Baleal ou desde que nasci). E por outro lado que maravilha ver comentários sobre a "nossa" praia. Pelo que vejo só por aqui falta o Amigo de Longa data para o trio estar completo.

Ex-anónimo do "arre-burro.weblog.com.pt/"

Miguel

miguel disse...

Ó Miguel, não estou a ver quem és, neste momento em que escrevo. Conheces-me?

Abraço de qualquer modo!

Unknown disse...

Não pessoalmente, apenas o "conheço" das crónicas no Arre Burro, que por sinal lia com muito prazer. Passo as minhas férias no Baleal desde que nasci (já lá vão 35 anos) em casa dos meus pais, por sinal vizinha da D. Adriana.

Abraço

Miguel

Anónimo disse...

Eu acho que o conheço, mas não sei se andava de burro nessa altura. Mas o Sr. Miguel é mesmo o Sr. Miguel?