
Nesta rubrica, sem obedecer a qualquer ordem de prioridade ou valor, gostava de relembrar o Professor Nuno Torrado da Silva, que faleceu há dez anos.
Foi pediatra - um grande professor e um grande clínico -, mas além disso, um humanista, combatente político, livre pensador. E um homem culto e bom. Humilde e sério, Rigoroso e exemplar.
Conheci-o melhor quando me convidou para trabalhar na Comissão de Saúde da Criança e do Adolescente, em 1992. Redigi com ele, horas e horas a fio, ao longo de noites sem dormir, o coloquialmente chamado "Relatório Torrado", que definiu os princípios conceptuais e estratégicos da saúde dos grupos etários pediátricos. Algumas conclusões foram implementadas, outras nem tanto, e ainda outras jazem na gaveta do ministro ou dos presidentes das administrações de saúde.
Mas o que quero relembrar do Professor Torrado, para além dos almoços nos cafés ou na Pizza-Hut da Álvares Cabral, onde funcionava a Comissão, são as conversas sobre a vida, sobre o sofrimento, a morte, a música (era um melómano e um grande conhecedor),a poesia, a política, a saúde e a doença, deus ou a sua inexistência, e tantas e tantas outras coisas.
Um dia tive o privilégio de ouvir uma conferência que fez sobre a representação da criança na arte e na pintura mundial - ele próprio era (muito bom) pintor, nos fins de semana (afinal tão escassos) da casa rural que tinha recuperado perto de Mafra.

Foi um pai, para mim. Um mestre.
Que nunca hesitou em partilhar o que sabia e o que sentia. Sem verdades absolutas, mas com um enorme rigor e sinceridade.
"
O século XX é o século da criança" - afirmava. Antevia dificuldades mas também muitos sucessos para as crianças do século XXI. Morreu antes de o ver, prematuramente.
Marcou-me. Muito. Mas ainda mais a saúde das crianças portuguesas. Bem haja, meu Querido Amigo!