quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

os primeiros passos

Sempre gostei particularmente deste quadro de Van Gogh, intitulado "Os primeiros passos".

Apesar de só em meados do século XX se terem compreendido as relações da criança com o pai e a mãe, e mais recentemente o papel na ousadia e na regressão que ambos representam, Van Gogh expressa neste quadro todo o conhecimento empírico do que a Ciência se encarregaria de demonstrar, muitas décadas depois: a criança, no final do primeiro ano de vida, passa do "pólo mãe" para o "pólo pai". Com a alegria e atitude receptiva do segundo (reparem no pormenor do pai se colocar de cócoras, à altura dos olhos da criança), com a mágoa e o sentimento de perda da primeira (tão bem simbolizado no gesto fatalista de a largar). E com o entusiasmo da própria criança, que estende os braços à autonomia e ao risco, estruturada que já está na segurança.

É um quadro admirável, que explica numa imagem o que vemos e passamos no dia a dia. As tristezas, os lutos, a sensação de "pré-reforma" das mães. O re-encontro, a felicidade, o entusiasmo dos pais.

"Corre!". "Cuidado!" - quem diz o quê? Mais importante é que ela aprende a "correr com cuidado". Van Gogh sabia...

7 comentários:

miguel disse...

"É um quadro admirável, que explica numa imagem o que vemos e passamos no dia a dia. As tristezas, os lutos, a sensação de "pré-reforma" das mães. O re-encontro, a felicidade, o entusiasmo dos pais."


Embora ,na minha opinião, a atitude desta mãe que está na pintura não espelhe exactamente aquilo que escreveste e eu transcrevi ( ela parece-me receptiva à atitude e chamamento do pai, demonstrando apenas alguns cuidados ao largar a criança - não vá a pequena cair )devo dizer que compreendo bem esta dicotomia mãe/pai. E o quadro é belíssimo. Ora ,acontece que vi em Madrid uma exposição sobre as últimas obras do Van Gogh. Vi em Paris outros quadros dele. E nunca vi este, com o qual fiquei fascinado. Em que museu está?

Mário disse...

Miguel
O quadro está no Metropolitan Museum of Art, em Nova Iorque.
Se reparares, a mãe olha para baixo, e a sua atitude corporal é de retraimento, ao contrário da da criança (e da do pai).
Sabendo o que "vai naquelas cabecinhas", é admirável como Van Gogh apanhou, com uma sublime discrição, o contexto psicológico.
Adoro este quadro, e uso-o muitas vezes nas consultas dos 6-9 meses.
Abraços

manuel teixeira disse...

"First Steps" - 1890 - está no
Metropolitan Museum of Art em New York

Su disse...

Quando estava a dar de mamar ao meu filho e o meu marido chegava, bastava que dissesse um "olá!" e acabava-se o jantar! O Diogo virava a cabeça e não havia voz mansinha, toques na bochecha ou desaparecimentos mágicos do papá que o fizessem voltar! Só sossegava no colo dele...

Eu ficava assim, num misto "cresce amor, mas devagar..."

Huckleberry Friend disse...

Lindo quadro, pai, não conhecia... e interessante a leitura do mesmo, embora, pelos vistos, não consensual. É o que a arte e a vida têm de riqueza, não é? Um abraço a todos!

manuel teixeira disse...

Caro huckleberry friend,
A resposta a este teu comentário creio que só poder ser: TOUCHÉ.
Vamos a ver se ela vem...

Abraço para ti do Manel

Milene disse...

Deconhecia também este quadro de Van Gogh e não posso deixar de o achar também "admirável": quanto à sua beleza e simbolismo Pedro, as opiniões penso que são consensuais.... Quanto ao "contexto psicológico do mesmo", já a leitura me parece bastante subjectiva: aí e apesar da postura de retraimento e o olhar da mãe para baixo a que o Mário se refere, conotando-a como um sentimento de perda e uma certa mágoa, é uma leitura com a qual concordo se pensarmos que Van Gogh o pintou, referindo-se à primeira experiência de maternidade vivida por uma mãe. Agora quando vem o 2º, 3º e chegamos ao quarto filho, como é o meu caso, desejamos que essa passagem do "polo Pai" para o "Polo mâe" se faça, se possível, antes do primeiro ano de vida: qual mágoa, qual sentimento de perda... Aí concordo com o Miguel: mãe é receptiva ao chamamento demonstrando SEMPRE alguns cuidados. É que nesta idade Dr. Mário(18 meses), todos os cuidados são poucos...!!!

Bjs Milene