segunda-feira, 13 de outubro de 2008

não resisti...


Hoje é Dia da Prevenção Rodoviária, especialmente dedicada ao transporte seguro de crianças nos automóveis, quer particulares, quer colectivos.

Desculpem a imodéstia, protagonismo, narcisismo, o que quiserem. E pecado confessado, está à partida perdoado (espero). Mas hoje é um dia de muito significado para mim.

Não posso deixar de referir ter sido a primeira pessoa a escrever um artigo científico (na Revista "Saúde Infantil") e coloquial (logo no 2º número da Pais&Filhos) sobre este assunto, em 1987 e 1988, respectivamente. O tema era de tal forma estranho que o editor da Revista médica pediu para acrescentar um subtítulo "uma experiência inglesa", ao título que era: "transporte da criança no automóvel". Em 1988 fizemos o primeiro estudo, que mostrou o quase total desconhecimento dos pais e da população. Agentes multavam os pais que tinham a cadeirinha no banco da frente (não havia airbags, na altura, pelo que a própria lei dizia que a criança podia ir à frente, desde que bem transportada), e tive de ir a tribunal mais de uma vez porque o que estava na cabeça das pessoas era: "o miúdo vai sempre atrás!". À balda, claro.

Recordo-me de, por causa deste tema, ter entrado a correr, sem pedir licença e furando a segurança e subindo a escadaria a quatro e quatro, com um polícia atrás de mim a dar-me voz de prisão, no gabinete do Secretário de Estado, Carlos Loureiro, na Praça do Comércio, em 1994, para tentar emendar um erro no decreto-Lei que ia ser levado a Conselho de Ministros daí a breves minutos. Esse erro atrasaria a implementação do uso de cinto no banco de trás por mais seis anos. E ao mesmo tempo ameaçando-o de um processo por cada criança que morresse indevidamente (o que a gente faz... entrar num gabinete de um governante com ameaças - se fosse hoje ia parar a Guantanamo). Tantas lutas, campanhas, spots, alegrias, esperanças, acções, e frustrações também...

Ainda me lembro do enorme susto que apanhou Cavaco Silva, então primeiro-ministro, quando desceu num simulador a 15 (quinze!) km/h e sentiu a brutal violência do choque, numa acção de rua na Avenida da Liberdade em que o meu filho mais velho esteve envolvido. Lembras-te, Pedro? "Chocar a 45 km/h tem a força de impacto igual a cair de um 5º andar" - quantas vezes repetimos isto, e quantas vezes fomos chamados de "exagerados", "maníacos", "fundamentalistas". "Não andámos todos sem cinto quando éramos pequenos" - diziam amigos e colegas. O pior é que os que tinham morrido não estavam cá para produzir esses comentários.

A Associação para a Promoção da Segurança Infantil (APSI, anagrama de PAIS) ocupou-me, de alma e coração, dez anos, desde a sua fundação em 1992. Com Kaj Edanius, durante um almoço em que um dizia "mata" e o outro "esfola", um sueco tão sonhador e louco como eu, que acreditava que seria possível ver, nos carros dos portugueses, o que já se via na Suécia e que eu, durante a minha estadia em Inglaterra, tinha tido o ensejo de levar à prática, com esse fantástico médico, amigo, e outro sonhador Aidan Macfarlane.

E também de, com o entusiasmo da Drª Maria de Belém Roseira, ter coordenado o grupo de trabalho que redigiu a proposta de decreto-lei sobre transporte colectivo de crianças, numa altura em que a melhor Ministra da Saúde das últimas décadas decidiu colocar a prevenção dos acidentes nas prioridades da Saúde. As vicissitudes da política levaram ao adiamento por sete anos, mas já é lei.

Muito se fez, em 20 anos. As cadeirinhas, consideradas uma coisa estranha, passaram a ser normais, mesmo que ainda com muitos erros de utilização pelos pais. Morriam nas estradas o equivalente a dois aviões cheios de crianças. A situação melhorou indubitavelmente, mas ainda há muito para fazer, como usar SEMPRE o cinto no banco de trás, e não facilitar NUNCA, porque podemos estar parado e alguém nos bater no carro.

Para os profetas da desgraça, a conclusão que deixo é: "vale a pena lutar por causas destas, porque se encontram vontades, pessoas e ideias, e nem sempre é a derrota que nos espera no final da linha.".

Hoje é um dia muito especial para mim.

9 comentários:

miguel disse...

Sem dúvida nenhuma. Este processo é uma das referências que eu tenho do Mário e ainda não o conhecia.

Ainda há bem pouco tempo era normal as crianças andarem " ao monte" dentro dos carros, ora à frente, ora atrás, sem sombra de cinto de segurança, sem sombra, acima de tudo, de segurança.

Até ao dia em que a lei entrou em vigor e, por exemplo, a autoridade começou a mandar parar carros junto à Escola Beiral que, na altura , os meus filhos frequentavam. Foi um ver se te avias. Para dizer a verdade, fartei-me de rir.

Hoje são os filhos que chamam a atenção dos pais :
- Olh'ó cinto!

Elisete disse...

Precisamente este Sábado, estávamos nós parados no semáforo da Miguel Bombarda quando reparámos que no carro à nossa frente iam três crianças no banco de trás completamente “soltas” aos saltos e pulos, cintos não se viam, cadeiras muito menos (à do meio só conseguíamos ver a cabeça quando se levantava). A presumível mãe, ao volante, gesticulava e ria. Ficámos, eu e o Arnaldo, estupefactos e o Arnaldo, como sempre “bom rapaz” (nunca pensa mal de ninguém) disse: “Vais ver que quando o sinal abrir põem o cinto”. Pois bem, o sinal abriu, a galhofa continuou, virámos para a Av da República, voltámos a parar e agora o remate final: parou um carro da polícia ao lado do carro da “mãe-maravilha”, olharam e nós, cá atrás, pensámos que iam por cobro àquele descalabro, mas o sinal abriu e todos partimos para os nossos destinos. Nunca tinha visto nada tão completo (com polícia à mistura!) mas já vi muitas situações semelhantes. Ah! Esqueci-me de dizer: a mãe-maravilha tinha cinto de segurança, nem tudo estava perdido, haveria alguém para chorar os filhos!

Anónimo disse...

Penso que foi uma luta plenamente vencida e que hoje já ninguém pôe em dúvida da bondade das medidas, mesmo com custos pecuniários , que nem sempre são muito acessíveis a todos.

Lembro-me de viajar Porto-Algarve com os meninos ao monte, e eu sempre atrás com eles, pois a ideia de eles se envolverem em brigas e fazerem barulho era insuportável para o condutor- meu marido.

Fiz já algumas viagens com os netos arrumadinhos nas suas cadeirinhas, atrás de tudo ou no banco do meio e eles portam-se maravilhosamente, dormem as suas sestas, vêem livros, cantam, tb choram por vezes, mas as viagens são muito mais calmas e sem stress.

Parabéns pelos resultados. De estatísticas, não sei, só sei que a criança tem hoje outro lugar para bem dos pais e da sociedade.

Virgínia

Su disse...

Hoje na SIC, quando passaram a peça sobre este dia, uma criança com menos de 1 ano era sentada na cadeirinha, mas já virada para a frente...

Felizmente já muito se vez (obrigada!) neste campo, mas ainda estamos a meio caminho. A informação que chega aos pais sobre o transporte de crianças nos automóveis é errada ou insuficiente e isto em muito se deve às marcas que vendem as cadeirinhas. Puxam as brasas à sua sardinha...

Todos os dias ponho os meus filhos nas cadeiras e todos os dias tenho de ouvir a Marta, com gritos e choros, porque não quer cinto... talvez seja mais fácil ceder aos protestos, mas temos de ter consciência de que levamos ali uma carga preciosa e basta um segundo para tudo mudar.

Eu nunca deixei que os meus filhos andasse no meu carro sem segurança e acredito que o Dr. Mário também não, mas quando não somos nós que os transportamos, como será?

sofia disse...

Caro Professor, pelo trabalho que tem desenvolvido numa área tão importante para a vida das crianças e, consequentemente, para a vida de todos nós, aqui fica o meu OBRIGADA :-)

joaopedrosantos disse...

Quero lembrar outra "luta" sua, também relacionada com segurança rodoviária: o uso de capacete na bicicleta. Hoje, ando muito de bicicleta e vou mesmo várias vezes para a Faculdade usando este meio de transporte. E nunca me esqueço das vezes que me avisou e das conversas que tinha com a minha mãe sobre a importância do capacete.

Obrigado, também por isso.

Mário disse...

Olá a todos, como diria o Noddy. e obrigado pelas vossas palavras.

Foi uma luta e tanto, mas valeu a pena. E aprendi muito, designadamente o que são lobbies (não só portugueses), a dificuldade em criar hábitos, algum show-off no mostrar das cadeiras, etc, etc.
Mas muito foi conseguido, e as cenas que a Elisete viu chocam-na (e bem), mas há vinte anos o que era normal, terno e carinhoso era ir a criança ao colo da mãe, à frente, ou então pendurada nos bancos dos pais, pronta a sair pelo vidro com a mínima travagem.

João Pedro - o capacete de bicicleta foi o único que faltou. Depois dos parques infantis e espaços de recreio, dos brinquedos CE e das piscinas (no que reporta à responsabilização), só faltou esse. O maior lobby contra foi... o da Federação Nacional de Velocípedes... porque o capacete faz muito calor e torna os ciclistas mais vulneráveis à cólera dos automobilistas...

Anónimo disse...

É uma pena que não haja também a mesma protecção em transportes públicos. Ao andar com o meu neto que tem 4 anos de autocarro, vejo o perigo que é, cada sacudidela e lá vai o miúdo de encontro às pernas duma velhinha, que ainda por cima se queixa da má-criação das crianças...:((

Virgínia

Teresa Andrade disse...

Caro Professor

Bem haja pela insistência em assuntos tão sérios e, tantas vezes, levados tão pouco a sério. Deixo apenas uma nota : e para quando a obrigatoriedade de existirem cadeiras nos táxis. Sei que alguns já a têm, e sei que os podemos chamar solicitando aqueles que têm cadeiras. Deveria haver mais pois não é correcto pensar que por ser um "profissional" pode transportar uma criança sem cadeira. óbvio que tem de partir dos responsaveis pela criança mas ainda existem muitas pessoas que não pensam nisso e apanham o táxi por urgência e lá vão .... sem nada para proteger a criança

Abraço